A OCUPAÇÃO DA AMÉRICA

Em Lagoa Santa, Minas Gerais, no século XIX, realizaram-se as primeiras pesquisas arqueológicas no Brasil, chefiadas pelo dinamarquês Peter Lund. Mais tarde foram descobertos vestígios de um grupo de seres humanos que ficou conhecido como Homem de Lagoa Santa.
Em 1975, localizou-se um crânio. As pesquisas demonstraram que era, até então, o fóssil mais antigo da América, com idade entre 11 mil e 13 mil anos. Além disso, os estudos indicaram tratar-se de uma mulher, a quem os arqueólogos denominaram Luzia.
(1) O povoamento do continente americano:
Pesquisas do século XX mostram que os primeiros povoadores da América chegaram ao continente a pé, pelo estreito de Bering (o ponto mais próximo entre Ásia e América, que, quando se congela, pode ser ainda hoje atravessado dessa forma). Os indícios mais concretos atualmente existentes mostram que levas migratórias passaram por essa rota entre 15.000 e 10.000 a.C.
Muitos pesquisadores ao longo do tempo sugeriram outros focos de povoamento. Nas primeiras décadas do século XX, o etnólogo Paul Rivet, fundador do Museu do Homem, em Paris, indicou diversas ondas de povoamento entre 6.000 e 3.000 a.C., provenientes da Ásia, Austrália e dos arquipélagos do Pacífico, as ilhas polinésias.
(2) Descobertas arqueológicas:
Os primeiros habitantes da América eram caçadores e coletores. Eles pertenciam ao chamado Paleolítico Superior ou Idade da Pedra Lascada. Escavações realizadas no Novo México, Estados Unidos, encontraram pontas de sílex, com cerca de 15 mil anos, época de crescimento da migração pelo estreito de Bering.
Entre 10 mil e 9 mil anos, as armas dos caçadores apresentavam maior capacidade agressiva. As pontas tinham base côncava e possuíam estrias de dois lados. Denominadas pelos arqueólogos de pontas Clóvis, eram praticamente pequenas lanças que os estudiosos associam à caça do bisão nas planícies da América do Norte.
Entre 8 mil e 6 mil anos, os povos de regiões como o atual México e a região andina da América do Sul iniciavam a agricultura.
Os inúmeros povos espalhados pela América não apresentavam o mesmo padrão de cultura material. Vários deles aperfeiçoaram os instrumentos de caça e inauguraram o cultivo da terra, ampliando as formas de sobrevivência do grupo. Outros se baseavam em atividades de caça miúda, utilizando instrumentos com ponta de pedra muito rudimentar. Alguns utilizavam armas de bambu e madeira.
(3) O continente que os europeus encontraram:
A maioria dos pesquisadores fixa a população da América no final do século XV entre 50 e 70 milhões de habitantes.
Havia enorme disparidade na distribuição demográfica das populações nativas pela América.
A concentração demográfica da população nativa ocorria em duas regiões específicas: a Mesoamérica (atual México e parte da América Central) e a região andina central (atuais Peru, Bolívia e Equador). Nessas regiões floresceram o que os arqueólogos denominam de altas culturas pré-colombianas. As populações da Mesoamérica foram pioneiras no desenvolvimento da agricultura, o que provocou a fixação das populações e gerou uma capacidade de produção superior às necessidades de subsistência da população. A região andina trilhou caminho semelhante pouco depois.
Na Mesoamérica e nos Andes formaram-se as primeiras sociedades estratificadas, as cidades, o artesanato especializado e a burocracia do Estado. Os principais exemplos dessas sociedades são os astecas (planalto mexicano), os incas (Andes) e os maias (península de Yucatán - México).
Na Mesoamérica, os arqueólogos datam os primeiros sinais do cultivo de milho, feijão e cacau em cerca de 7 mil anos. Mas somente há cerca de 2 mil anos a agricultura tornou-se a base dessas sociedades.
Nos Andes Centrais, o processo de fixação das populações começou mais tarde, há cerca de 5 mil anos, baseado sobretudo no cultivo de tubérculos e na domesticação de llamas. Há cerca de mil anos, a organização social das populações da Mesoamérica e dos Andes estava baseada em produção agrícola altamente produtiva, por vezes utilizando técnicas de irrigação e cultivos em plataformas artificiais.
É possível identificar três grandes complexos agrícolas na América: (a) O complexo do milho (Mesoamérica); (b) O complexo dos tubérculos, sobretudo a batata (serra andina); e (c) O complexo da mandioca (região amazônica e boa parte do litoral atlântico da América do Sul).
Isso não significa que tais cultivos fossem exclusivos em suas respectivas regiões.
Tanto no hemisfério Norte como no Sul, inúmeros grupos não desenvolveram nenhum tipo de agricultura, fazendo da caça, pesca e coleta o seu modo de vida (nômades).
Por que a agricultura desenvolveu-se tão intensamente na Mesoamérica e nos Andes, a ponto de concentrar cerca de 90% da população continental? Tais regiões foram, durante milhares de anos, importantes lugares de passagem, áreas receptoras de migrações e mistura de povos de variada procedência. A troca e o acúmulo de experiências possivelmente resultaram em maior capacidade para a "domesticação" das plantas.
A agricultura estimulou a divisão do trabalho no interior das aldeias e depois entre o campo e a cidade. Estimulou também o surgimento de artesãos, guerreiros e sacerdotes por tempo integral, além de uma burocracia ancorada em tradições religiosas. A capacidade de produzir excedentes agrícolas foi a base dessa transformação, promovendo a distinção entre os camponeses da aldeia, de um lado, e os responsáveis pela administração, religião e guerra, de outro.



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