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  COMO NA ARGENTINA* (Reflexão: A persistência e a dificuldade de ocultar-se e dissolver-se os corpos dos desaparecidos durante as ditaduras latino-americanas, como a da Argentina. Pode o Estado livrar-se do corpo de um perseguido político, mas como uma nação pode libertar-se do seu passado traumático?) Por LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO (In memoriam) Não é fácil eliminar um corpo. Uma vida é fácil. Uma vida é cada vez mais fácil. Mas fica o corpo, como o lixo. Um dos problemas desta civilização: o que fazer com o próprio lixo. As carcaças de automóveis, as latas de cerveja, os restos de matanças. O corpo boia. O corpo vai dar na praia. O corpo brota da terra, como na Argentina. O que fazer com ele? O corpo é como o lixo atômico. Fica vivo. O corpo é como o plástico. Não desintegra. A carne apodrece e ficam os ossos. Forno crematório não resolve. Ficam os dentes, ficam as cinzas. Fica a memória. Ficam as mães. Como na Argentina. Seria fácil se o corpo se extinguisse com a vid...
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O HOMEM PRESO QUE OLHA SEU FILHO (Para reflexão sobre regimes autoritários, tortura e repressão na História da América Latina) Pelo poeta uruguaio MARIO BENEDETTI Quando eu era como você me ensinaram meus pais E também as professoras bondosas e míopes Que liberdade ou morte era uma redundância. Quem poderia imaginar num país Onde os presidentes andavam sem capangas. Que a pátria ou a tumba era outro pleonasmo Já que a pátria funcionava bem Nos estádios e nos pastoreios. Realmente meu filho eles não sabiam nada Pobrezinhos acreditavam que liberdade Era só uma palavra aguda Que morte era palavra grave E cárceres por sorte uma palavra esdrúxula. Esqueciam de por o acento no homem. A culpa não era exatamente deles Mas sim de outros mais duros e sinistros. E estes sim Como nos espetaram Na limpa república verbal Como idealizaram A vidinha de vacas e estancieiros. E como nos venderam um exército Que tomava seu mate nos quartéis. A gente nem sempre faz o quer A gente nem sempre pode Por is...