FÉ NA VIDA: UMA PROSA COM SÃO FRANCISCO SOBRE A DOR, A ENFERMIDADE E A MORTE FÍSICA...
Por JORGE ESCHRIQUI
Com dores físicas deitei-me à noite em meu leito. Fechei os olhos e, enquanto escorria uma lágrima dos olhos, pedi a Deus que me desse o equilíbrio mental, a resiliência, a persistência e a determinação para não desistir jamais independentemente das previsões e expectativas sobre prazos e possibilidades sobre cura dados pelos profissionais de saúde. Depois de algum tempo, a dor foi vencida pelo sono, fazendo-me desligar deste mundo de tantas provas e expiações nos últimos tempos para mim.
Durante o meu sono, veio um sonho bom que desejava dele não acordar tão cedo. É como se o perispírito se desligasse desta matéria física tão judiada e sadio percebi-me por umas horas. Quão bom foi para a minha mente estar pleno ao ponto de viajar em pensamentos e encontrar-me de madrugada na praça em frente à Basílica de Canindé com São Francisco. Nem parecia que poucas horas antes havia uma multidão percorrendo as ruas da cidade, fazendo preces, cantando, seguindo a procissão, pagando as suas promessas, assistindo novelas, etc.
São Francisco, que estava em pé na porta do templo, chamou-me com uma das mãos e pediu para que eu me sentasse ao seu lado em uma calçada lateral da Basílica que fica de frente para a casa dos milagres: "Venha irmão, sentai aqui ao meu lado e vamos ter uma prosa. Desabafar também é remédio para a mente, o corpo e o espírito. Alivia o peso que a enfermidade causa dentro nós".
Após sentar-me ao seu lado na calçada, São Francisco comentou: "Vejo que não perdes uma procissão todas as noites pela televisão durante as festividades que os teus irmãos dedicam a mim neste período do ano, não é verdade? Apesar de tantas atenções dadas a outros irmãos que sofrem, agradecem e pedem a minha intercessão junto a Deus, percebi também que assististe a cerimônia e missa de abertura da festa, não foi?". E eu respondi: "Sim. É algo que foge da explicação da lógica racional a que estou acostumado em outras fases da minha vida terrena. Talvez seja carência e necessidade de buscar apoio emocional para superar estes quase quatro anos de enfermidade. Não está fácil. Porém, confesso que a fé que me faltou no passado, hoje, graças à minha admiração por ti, São Francisco, é a mesma que me dá energia e equilíbrio para enfrentar o duro e demorado tratamento das minhas dores físicas".
São Francisco parou, refletiu por um instante enquanto ficava com um olhar fixo no calçamento de pedras que cerca o templo e me falou: "Irmão, reparai nos semblantes dos outros irmãos que passam o ano todo vindo aqui. Em sua maioria, são semblantes de gente sofrida, pobres em ouro, mas ricos em fé. E é esta riqueza de fé que os fazem acreditar ainda na paz, no amor fraternal e, sobretudo, na vida. E as romarias deles até aqui não é fácil! Uns cruzando vales e montes a pé, alguns em bancos duros de caminhão pau de arara e outros em ônibus, vans ou automóveis particulares. O que quero te dizer com isto, irmão? A jornada de uns pode parecer, à primeira vista, mais suave e branda do que a de outros até chegarem à Canindé. Contudo, percebei um termo que eu utilizei e enfatizo novamente: 'à primeira vista'. Por que? Quem garante que entre aqueles que vêm em veículos mais confortáveis e chegam mais rapidamente aqui estão fisicamente melhores e sofrem menos do que os romeiros fazem a sua rota a pé ou em caminhão pau de arara? Às vezes, irmão, entre os fiéis que utilizam ônibus, vans e automóveis particulares há pessoas com dificuldades de locomoção, pais com as suas crianças pequeninas, enfermos de doenças que demandam cuidados redobrados, etc. Por outro lado, um romeiro que vem de caminhão pau de arara ou a pé é saudável, tem o preparo físico, viaja de localidades mais próximas daqui, dentro do próprio estado do Ceará, possui saúde plena como uma bênção divina, etc."
Após esta reflexão, perguntei a São Francisco: "O que podemos concluir desta fala. Dizei-me, por favor". E Ele respondeu: "Irmão, aqui na festa, o objetivo das romarias de cada irmão é chegar aqui na festa. Cada qual tem a sua própria forma de locomoção de acordo com a distância física, as limitações materiais, as restrições de saúde ou etárias, entre outros fatores. O destino é o mesmo, mas cada irmão cumpre uma jornada, mas todos movidos pela fé que os alimenta. Da mesma forma acontece com a jornada da vida. Da existência na Terra somente temos uma certeza e um destino. E não me refiro à morte, mas à passagem do plano físico para o espiritual, pois quem tem fé e espiritualidade sabe que vida terrena é tão apenas um breve intervalo de tempo marcado por encontros e despedidas. Até a chegada do momento desta passagem, todos os irmãos, assim como os romeiros daqui, precisam cumprir uma jornada ou viagem. Uns aparentemente com mais limitações, restrições e dificuldades, outros talvez com mais facilidades e confortos. Todavia, a jornada de nenhum irmão é só facilidades, uma vez que demanda a coragem de enfrentar a estrada da vida com os seus percalços e as suas conquistas. Prefiro usar a palavra 'percalços' ao invés de 'derrotas', irmão, porque até nos percalços tiramos aprendizados preciosos que são instrumentos úteis em outros momentos da existência. Compreendei o que desejo dizer?
Eu respondi: "Sim, irmão São Francisco. Contudo, responda-me umas dúvidas. A dor física é necessária? Por que uns penam mais do que os outros? Seria castigo divino ou destino?". Prontamente, São Francisco respondeu: "Não, irmão. A dor física não é uma necessidade na vida. Se assim pensássemos, a vida deveria ser percebida como uma eterno martírio e não uma dádiva divina. Ademais, Deus não faz discriminação entre os seus filhos. As diferenças materiais e sociais são produtos sociais elaborados pelos seres humanos para criar separações e barreiras entre eles, o que muitas vezes os impedem de enxergar no outro um semelhante! O problema é que muitas vezes olhamos apenas para os nossos próprios dilemas e desafios, acreditando que somente nós sofremos. Será realmente que por trás de um aparente mar de rosas que enxergamos no outro não há tantas ou até mais dores físicas, materiais e espirituais do que as que possuímos?".
São Francisco prosseguiu: "Irmão, Deus não é uma entidade que existe para punir ou castigar ninguém! Se assim fosse, não faria sentido algum acreditar em sua misericórdia infinita e capacidade de perdoar sempre as nossas faltas. Por isso, Deus é pai. Tanto é pai que, apesar de tua enfermidade, irmão, ele lhe proporcionou as condições materiais para poder tratar-se com bons profissionais de saúde e medicamentos mais avançados produzidos pela inteligência humana, um presente também divino. Também lhe deu familiares e amigos que lhe estendem a mão nos momentos em que as suas forças parecem acabar-se, erguendo-o para prosseguir em sua jornada terrena. Também ninguém é predestinado a sofrer, pois se fosse assim Deus estaria tratando os seus filhos com discriminação, dando apenas benesses a alguns em detrimento dos demais". Novamente questionei São Francisco: " E por que ficamos repentinamente enfermos e vemos a nossa vida parar no tempo e no espaço, às vezes parecendo até sem expectativas de cura?"
E São Francisco replicou: "O tempo do relógio e o calendário são invenções humanas. O tempo de Deus e da natureza é diferente. Tem o seu próprio ritmo. E, caro irmão, não veja na enfermidade apenas uma tragédia. Dor física é bom? Lógico que não. Deus gosta de ver os seus filhos sofrerem? Obviamente que não! Todavia, façamos uma reflexão. Quantas vezes não negligenciamos a saúde do nosso corpo que é a morada do nosso espírito neste mundo? Quantas vezes não agradecemos ou não valorizamos a saúde quando nós a possuímos? Toda ação traz uma reação nesta vida. Além de aprendermos a valorizar um bem tão precioso como a saúde, a dor física proporciona-nos, irmão, a aquisição das habilidades e capacidades de resiliência, paciência, persistência e fé na espiritualidade e na vida. Não estás ainda vivo? Quer dizer que a batalha não está perdida. Tentai outra vez, mas cada vez mais com devoção. E um dia verás que, aqui ou no outro plano, saíste mais evoluído e regenerado se souberes fazer a caminhada da busca da cura não apenas um período de lastimação pelas coisas deixadas no passado, mas uma oportunidade de autoconhecimento e abertura a novas descobertas de pessoas, lugares e experiências no presente e no futuro".
São Francisco despediu-se de mim, dizendo: "Até breve. Porque quem tem fé na espiritualidade e na vida, jamais estará perdido ou sozinho em sua caminhada terrena. Estaremos distantes fisicamente, mais próximos mental e espiritualmente. Paz e Bem!". Foi o momento em que acordei do meu sono e defrontei-me com mais um dia de jornada de luta pela vida.
