EDUCAÇÃO INTEGRAL

O século XXI consolidou demandas que foram historicamente construídas em todas as esferas sociais, inclusive na educacional. A organização social atual exige uma escola multifuncional, com profissionais mais completos, integrais, que, além de dominar o conteúdo especializado, sejam preparados para lidar com os desafios da contemporaneidade. Esses profissionais devem estar capacitados para atuar na formação integral dos discentes, preparando-os para a vida em sociedade e para exercerem a cidadania em todas as suas vertentes. É nesse novo paradigma social que o discurso de educar integralmente, de preparar os educandos, física, afetiva, cultural e cognitivamente ganha força e atinge todos os âmbitos da esfera política, concretizando-se nos documentos oficiais que regulamentam a educação no país. A Educação Integral é uma concepção da educação que não se confunde com o horário integral, o tempo integral ou a jornada integral.
A Constituição Federal (1988), o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB - Lei 9.394/1996) são documentos legais que estabelecem o direito à Educação Integral a todas as crianças e adolescentes do país. A LDB também preconiza a progressiva implantação do ensino em tempo integral nas instituições nacionais de ensino público: Art. 34. A jornada escolar no ensino fundamental incluirá pelo menos quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula, sendo progressivamente ampliado o período de permanência na escola. Parágrafo 2º. O ensino fundamental será ministrado progressivamente em tempo integral, a critério dos sistemas de ensino.
(1) Diferença entre educação integral e educação de tempo integral:
A Educação Integral é uma concepção que compreende que a educação deve garantir o desenvolvimento dos sujeitos em todas as suas dimensões (intelectual, física, emocional, social e cultural) e se constituir como projeto coletivo, compartilhado por crianças, jovens, famílias, educadores, gestores e comunidades locais.
(2) Educação Integral:
É uma proposta contemporânea porque, alinhada às demandas do século XXI, tem como foco a formação de sujeitos críticos, autônomos e responsáveis consigo mesmos e com o mundo. É inclusiva porque reconhece a singularidade dos sujeitos, suas múltiplas identidades e se sustenta na construção da pertinência do projeto educativo para todos e todas. É uma proposta alinhada com a noção de sustentabilidade porque se compromete com processos educativos contextualizados e com a interação permanente entre o que se aprende e o que se pratica. Promove a equidade ao reconhecer o direito de todos e todas de aprender e acessar oportunidades educativas diferenciadas e diversificadas a partir da interação com múltiplas linguagens, recursos, espaços, saberes e agentes, condição fundamental para o enfrentamento das desigualdades educacionais.
Como concepção, a proposta de Educação Integral deve ser assumida por todos os agentes envolvidos no processo formativo das crianças, jovens e adultos. Nesse contexto, a escola se converte em um espaço essencial para assegurar que todos e todas tenham garantida uma formação integral. Ela assume o papel de articuladora das diversas experiências educativas que os alunos podem viver dentro e fora dela, a partir de uma intencionalidade clara que favoreça as aprendizagens importantes para o seu desenvolvimento integral.
(3) Vantagens da Educação Integral:
Entre as vantagens da Educação Integral, destacam-se: (a) melhoria no desempenho dos alunos porque nesse regime de ensino há períodos destinados para que o aluno estude para as provas e faça os trabalhos do dia, sempre com o apoio de profissionais. Isso pode levar à melhoria no desempenho do aluno; (b) utilização do tempo ocioso, pois muitas vezes o jovem que sai da escola e vai para casa não utiliza o seu tempo para atividades culturais ou de estudo. Nas escolas com Educação Integral, há melhor aproveitamento desse tempo que seria ocioso, podendo afastá-lo, inclusive, do envolvimento com atividades que levem a problemas de risco social; (c) contato com atividades de lazer, esportes e cultura, uma vez que nas escolas com Educação Integral há uma série de atividades recreativas, esportivas e culturais voltadas aos alunos que, de outro modo, talvez não tivessem acesso a elas e com a vantagem extra de que elas são pensadas pedagogicamente; (d) melhoria na relação familiar porque, muitas vezes, depois de um dia atribulado no trabalho, os pais chegam em casa e precisam conferir e ajudar os filhos a fazer seus deveres. Essas cobranças podem levar a conflitos e desgastar a relação familiar. Quando o jovem já estudou e fez os deveres na escola, esse período poderá ser utilizado apenas para atividades mais prazerosas junto à família; (e) desenvolvimento da autonomia, visto que na Educação Integral há desenvolvimento da autonomia dos jovens, que não dependerão apenas dos pais para estudarem e fazerem suas atividades escolares. O convívio frequente com outros jovens e adultos também colabora para o desenvolvimento de habilidades sociais.
(4) Desafios da Educação Integral:
A Educação Integral possui diversas vantagens, mas também importantes desafios, destacando-se: (a) novo papel dos pais, pois a Educação Integral valoriza a autonomia do aluno. Entretanto, alguns pais ressentem-se de participarem menos da rotina dos filhos. É importante lembrar que a presença dos pais é fundamental para o desenvolvimento dos jovens. Por isso, é preciso encontrar outras formas de participar do dia a dia dos filhos, uma vez que a Educação Integral ocupa-se apenas de uma esfera de seu desenvolvimento. Os pais não devem pensar que a escola os substituirá; (b) falta de um projeto pedagógico específico porque o projeto pedagógico de uma escola com Educação Integral precisa ser muito bem definido para que o período estendido não seja maçante para o aluno, mas o auxilie em seu desenvolvimento completo enquanto cidadão. Ao contrário do que diz o senso comum, passar mais tempo na escola não é sinônimo de Educação Integral. A Educação Integral precisar estar baseada em aprendizagens significativas que levem a uma educação de qualidade e que forme integralmente os jovens alunos; (c) falta de estrutura de algumas escolas, visto que, para que a Educação Integral funcione, é preciso que as escolas tenham estruturas físicas adequadas. Nesse tipo de proposta, as escolas precisam ter locais específicos para práticas esportivas, por exemplo. Assim, é preciso que a escola esteja bem adaptada para esse modelo antes de lançá-lo. É importante que os pais conheçam as instalações escolares antes de realizar a matrícula.
(5) Educação em Tempo Integral:
O termo Educação em Tempo Integral ou Escola de Tempo Integral diz respeito àquelas escolas e secretarias de educação que ampliaram a jornada escolar de seus estudantes, trazendo ou não novas disciplinas para o currículo escolar. A maioria das unidades de ensino que adota esse modelo geralmente implementam a extensão do tempo em turno e contraturno escolar (durante metade de um dia letivo, os estudantes estudam as disciplinas do currículo básico, como português e matemática, e o outro período é utilizado para aulas ligadas às artes ou esporte).
Na perspectiva da Educação Integral, o conceito de tempo integral suscita várias discussões, uma vez que há algumas correntes dos movimentos sociais ligados à educação que defendem que apenas a ampliação do tempo de estudo não garante o resultado ambicionado pela Educação Integral no ensino e aprendizagem dos estudantes (resultado este que deseja garantir o pleno desenvolvimento das crianças e adolescentes).
(6) Vantagens da Educação em Tempo Integral:
Entre as vantagens da Educação em Tempo Integral, podem-se destacar: (a) melhora o aproveitamento do tempo, pois, além das brincadeiras livres, as crianças participam de outras que proporcionam aprendizados importantes; (b) favorece o desenvolvimento social, uma vez que as crianças aprendem, brincam e interagem entre elas. Quando os alunos resolvem desafios de forma colaborativa, o desenvolvimento social e emocional é mais estimulado, além da criatividade; (c) oferece educação bilíngue, o que, além de não ter que se deslocar para outra instituição, o período integral permite atividades durante as aulas de idiomas que as tornam mais eficientes. Em vez de aprender apenas gramática, por exemplo, o aluno pode usar o inglês em aula de ciências. A criança já cresce com um bom conhecimento de inglês ou espanhol para que, no futuro, possa estudar, se desejar, em uma universidade fora do país; (d) supre a carência de lazer e cultura, pois com um número maior de aulas de educação física, o aluno tem acesso a diversas modalidades de esportes, sempre respeitando seu desenvolvimento motor e a capacidade de atuar em grupo; (e) estimula a criatividade e o pensamento crítico, uma vez que uma carga horária maior permite a realização de projetos interdisciplinares mais complexos, que desafiam a criança a resolver situações-problema em lugar de decorar conceitos. Os alunos podem, por exemplo, aplicar conceitos de física na construção de "engenhocas". Dessa forma, haverá maior desenvolvimento de sua capacidade crítica; (f) oferece educação digital e a criança que aprender a usar o computador não apenas como mais um instrumento de comunicação e de pesquisa, mas, por exemplo, por meio do uso de robôs e jogos, consegue "falar" com o computador, aproximando-se gradualmente da linguagem de programação; (g) oferece educação alimentar, ou seja, a criança aprende a comer de forma saudável e conhecer uma variedade maior de alimentos por ter acesso a uma alimentação planejada por uma equipe de especialistas.
(7) Desafios da Educação em Tempo Integral:
Entre os desafios da Educação em Tempo Integral, pode-se citar: (a) falta de estrutura física; (b) falta integração de disciplinas; (c) falta de profissionais: carência de porteiros, inspetores de alunos, merendeiras, pessoal administrativo; (d) aumentar o número de horas não resolve: é preciso dar reforço escolar, atividades esportivas e culturais; (e) dificuldades na implementação do ensino integral: se terá professores suficientes, se o projeto pedagógico está alinhado.
Esses são alguns. Há muito outros fatores que interferem na construção de uma proposta de Educação em Tempo Integral, que proporcione aos alunos o direito à formação integral, direito que se traduz na possibilidade de percorrer seu processo educativo, de adquirir e construir conhecimentos e de desenvolver potencialidades para interpretar a complexa realidade em que se vive, ao assumir a condição de sujeito interativo. A concretização desse direito exige outra compreensão do que seja o processo de ensino-aprendizagem e de como ele se articula com a totalidade da formação humana.
Apesar dos problemas, a implantação do tempo integral, pautado na Educação Integral, constitui-se um avanço na tentativa de melhorar a qualidade do ensino no Brasil. Contudo, os paradigmas impostos para que esta educação se realize estão equivocados. O papel da escola é prioritariamente pedagógico. Outras funções podem coexistir desde que não interfiram, prejudiquem ou impossibilitem o cumprimento da função primeira da escola: a pedagógica. Ademais, a escola de tempo integral não deve ser um lugar para deixar a criança porque a rua é um risco, mas sim porque essa criança precisa ter acesso ao conhecimento científico e cultural acumulado pela humanidade, desenvolver suas potencialidades e ser devidamente preparada para atuar na sociedade, ciente dos seus direitos, deveres e das regras que permitem a convivência social.



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