A HISTÓRIA DE FREI MAXIMILIANO DE KOLBE, HERÓI E MÁRTIR NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE EXTERMÍNIO DE AUSCHWITZ
(AMOR A DEUS, AO PRÓXIMO E A TODAS AS CRIATURAS DA NATUREZA COMBINA COM A EXTREMA DIREITA?)
Por SÉRGIO C. LORIT
Ao alvorecer do setembro de 1939, de chofre, a morte caiu em cachos do céu, e à sombra dos "Stukas" as ardas de aço do Atila nazista avançaram, destruindo qualquer resistência e incendiando tudo na Polônia. Também a cidade de Niepokalanów foi atingida pelas bombas. Imediatamente frei Kolbe procurou pôr a salvo os seus frades, enviando cada um de volta à própria família.
Ele permaneceu no lugar, só com o pequeno rebanho dos primeiros fundadores da "cidade". Mas no dia 19 de setembro, caíram sobre Niepokalanów os primeiros SS de assalto. "Alle raus !" (Todos embora!), foi a ordem urrada. Foram arrastados para fora, obrigados a subir, aos empurrões, em vagões de carga e enviados ao campo de concentração de Amtitz.
O que frei Kolbe fez naquele campo mereceria uma narração a parte. Basta-nos recordar um pequeno trecho da declaração de um seu companheiro de prisão, Juraszek: "Uma noite, acordando de sobressalto, senti alguém que me cobria delicadamente. Era o frei Kolbe. Sempre que me lembro dele não posso deixar de chorar. Notei que às escondidas, dava uma parte de sua ração a um irmão que sentia fome mais do que os outros: e a ração que nos davam era tão pequena que só o coração de uma mãe podia ter a força
de diminuí-la ainda".
Em 8 de dezembro, inesperadamente, foram libertados. Frei Kolbe foi logo para Niepokalanów: encontrou-a completamente saqueada. Um após outro, nos dias que se seguiram, viu voltar muitos dos seus frades de toda parte do País transtornado. "Rezemos - disse-lhes - e aceitemos todas as cruzes, e amemos nosso próximo sem distinção, amigos e inimigos".
***
No dia 17 de fevereiro de 1941, porém, um jovem frade espantado correu precipitadamente para o seu quarto. "Frei Kolbe disse ofegante - chegaram... um carro preto... são eles... a Gestapo...". Acorreram também todos os outros.
Definhado, frágil, diáfano, dirigiu-se ao encontro dos cinco esbirros gigantescos. "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo", saudou-os. "És tu frei Maximiliano Kolbe?". "Sim, sou eu". "Segue-nos!". O carro preto esperava lá fora, lúgubre como um carro fúnebre. Um empurrão brutal, e foi jogado para dentro. A porta fechou-se com surdo rumor, e o carro partiu para o inferno de Pawiak.
***
Um dia o Schaarführer das SS passou em inspeção os prisioneiros. Quando abriram a cela número 103, a visão de uma túnica religiosa o fez enlouquecer literalmente. Como uma fera lançou-se sobre frei Kolbe, agarrou o grande rosário que lhe pendia da cintura, arrancou-o e mostrando-lhe o crucifixo de madeira, berrou babando de raiva: "Imbecil! Idiota! Vigário sujo! Crês tu nesta coisa?". "Claro que creio".
Uma bofetada estalou na face esquerda de frei Kolbe e outra na face direita: e da boca escorreu sangue. "Crês ainda?". "Oh sim, e como creio!". Mas uma descarga de bofetadas sob um dilúvio de horrendas blasfêmias. "Agora não me dirás que crês ainda, não é?". "Sim, creio mais do que nunca".
Então o Schaarführer das SS lançou-se contra ele de punhos fechados e do alto de seus dois metros de estatura golpeou, golpeou e golpeou, até que no chão, de frei Kolbe não pareceu restar senão um disforme e pequeno amontoado de carnes doloridas. Quando porém o torturador se foi, batendo violentamente a porta entre os escárnios do séquito, e os companheiros de cela se puseram ao redor, chorando, sobre aquele pobre corpo martirizado, ouviu-se sua voz sussurrar: "meus amigos, não chorem. Pelo contrário, alegrem-se. Tudo isto é pelas almas. É pela Imaculada...".
Nos dias que se seguiram, vinte frades se ofereceram como reféns no lugar de frei Maximiliano, que por causa das batidas recebidas fora recolhido numa espécie de enfermaria em estado grave devido a uma pneumonia traumática. Como resposta, assim que conseguiu pôr-se de pé, a Gestapo embarcou-o com uma turma de infelizes apinhados num vagão de carga para a sua última viagem: Auschwitz.
***
De longe, dos pântanos, além dos arames farpados percorridos pela corrente elétrica, chegaram os latidos de um cão policial. Portanto, a caça ao fugitivo estava ainda em andamento. E anoitecia. No campo de concentração, já há três horas - três longas, intermináveis horas - as Maschinenpistolen (pistolas-metralhadoras) dos SS obrigavam os prisioneiros a permanecer na posição de sentido, numa imobilidade absoluta. Alinhados em muitas fileiras ao longo dos quatro lados do imenso pátio, agrupamento junto a agrupamento, aqueles prisioneiros assemelhavam-se mais a grotescos manequins do que a seres humanos. Milhares de casacos com listas verticais, pendurados em esqueletos viventes, numa gigantesca parada de horrores. Das torres de vigilância os canos das metralhadoras percorriam fila por fila, perscrutavam rosto por rosto.
Três horas antes, precisamente às 18 horas daquele dia de fim de julho de 1941, os grupos de prisioneiros - chamados "blocos" na gíria do campo, porque os seus componentes, correspondiam aos que eram alojados no mesmo casarão, isto é, num bloco - os grupos, portanto, haviam regressado, como de costume, do trabalho forçado. Devido à estação, os trabalhos de escavação haviam sido interrompidos por alguns dias, para iniciar-se a colheita do trigo e da cevada naqueles poucos pedaços de terra que os pântanos não tinham engolido ainda. Enfileirados em quadrado no esquálido pátio, os detidos haviam respondido à chamada da tarde. Todos menos um. Um número repetido diversas vezes tinha ficado no ar, sem resposta. Era o número de um prisioneiro do "bloco 14". Imediatamente disparava o dispositivo de alarme: cães e guardas da Gestapo lançavam-se à caça do fugitivo, enquanto no pátio as ordens excitadas davam início à punição coletiva.
Entre as câimbras provocadas pela imobilidade, forçada na posição de sentido, o terror escavava as almas, minuto por minuto, por cento e oitenta eternos minutos... "Meu Deus, o que acontecerá agora?", perguntavam-se os prisioneiros do "bloco 14". "A quem tocará pagar? Talvez a mim?". "Fosse ao menos a morte por um pelotão de fuzilamento ! Uma rajada, e pronto! Tudo acabado... Fosse ainda a forca! Mas é o bunker que nos espera, o bunker...".
Não adiantava iludir-se. Pois· nos dois casos precedentes de evasão, ocorridos em Auschwitz, o chefe do campo, Lagerführer Fritsch, havia procedido cada vez e pessoalmente, à escolha de dez vítimas dentre os componentes do "bloco" do fugitivo; e cada vez as portas do bunker tinham se fechado para sempre às costas das vítimas.
O bunker havia sido escavado sob o "bloco 13". Em cima erguia-se um casarão como os outros, diverso dos demais, apenas pelo número que era pintado de preto. No andar térreo alojava-se a Companhia de Disciplina, que providenciava as execuções sumárias, pendurando nas forcas erguidas em todo redor, a qualquer um que se tornasse culpado do mínimo ato de insubordinação. Mas naquela noite não eram as forcas que gelavam de horror os prisioneiros do "bloco 14". Eram os subterrâneos. Naqueles subterrâneos tinham sido abertas algumas celas absolutamente nuas, desprovidas de janelas, sem enxergas, sem nada a não ser um vaso imundo e fedorento num canto. Naqueles dias, em algumas destas celas, agonizavam, na mais negra escuridão, cerca de vinte condenados à morte...
O "bloco 13" era cercado por um sólido muro de seis metros de altura, ao qual não era permitido nem sequer aproximar-se sob pena de enforcamento imediato. Aqueles que fossem obrigados a transpor a porta que se abria naquele muro e a descer nas celas do bunker, daquele momento em diante podiam considerar-se "sepultados vivos". Era definitivamente cortada qualquer comunicação deles com o exterior, e cortada era definitivamente qualquer comunicação do exterior com eles. Uma vez por dia os SS da Companhia de Disciplina desceriam aos subterrâneos, abririam a porta da cela e Bruno Borgoviec, o prisioneiro polonês utilizado nas funções de intérprete, secretário e coveiro do "bloco 13", recolheria os cadáveres das últimas vinte e quatro horas para lançá-los nos fornos crematórios. As súplicas de um pedaço de pão e de um gole d'água, os esbirros responderiam com blasfêmias e com pontapés no ventre. "E assim até à morte do último condenado...", repetiam entre si, naquela noite, os prisioneiros do "bloco 14". Exatamente assim. Enquanto Auschwitz funcionou, ninguém jamais saiu vivo do bunker da fome.
***
O Lagerführer Fritsch ouviu o relatório dos subalternos e depois dirigiu-se para os prisioneiros do "bloco 14". Palitsch, o ajudante, seguia-o a dois passos; alguns metros mais atrás, em semicírculo, um grupo de SS, e cada um era um arsenal de armas. Quando o comandante estancou de pernas abertas diante de suas vítimas, no campo caiu um silêncio de tumba. Por alguns minutos Fritsch saboreou aquele grande silêncio de temor, depois quebrou-o de chofre: "O fugitivo não foi encontrado. Dez de vocês morrerão no bunker da fome. Da próxima vez serão vinte".
A sentença estava pronunciada. Cada prisioneiro do "bloco 14" sentiu-se virtualmente condenado. Das frontes lívidas escorriam em rios, os frios suores do medo. "Agora chegou a minha vez...". "Ei-lo; o carrasco vem na minha direção". "Meu Deus! Faze-me morrer, mas não deste modo!".
Fritsch amava os gestos espetaculares. Enquanto passava entre aquelas sombras como o anjo da morte, nos seus ouvidos martelavam notas wagnerianas. Parou por acaso diante de cada um que deveria morrer. "Abre a boca! - Berrou cada vez num péssimo polaco - Mostra os dentes! A língua de fora!" e demorou-se diante de cada vítima para inspecionar minuciosamente a cavidade oral, como um magarefe diante dos animais destinados ao matadouro. Tencionava escolher os mais fortes? Queria liquidar os mais fracos? Nada disso. A escolha expressava apenas o seu capricho e a "inspeção sanitária", as exigências de encenação.
Após cada exame da boca, Fritsch apontava invariavelmente o indicador para o número do prisioneiro costurado sobre o casaco no lado esquerdo do peito. "Este aqui", dizia. E Palitsch acrescentava um novo número à lista dos condenados. Um após outro, com os semblantes exangues e com os olhares perplexos, os escolhidos foram arrancados das fileiras até que o pelotão dos condenados à morte ficou completo. "Até logo, amigos, - disse um deles, saudando com a mão os que escaparam daquela sorte - rever-nos-emos lá em cima, onde há a verdadeira justiça!". "Viva a Polônia! - gritou um jovem. É por ela que eu dou a minha vida!".
Depois ouviu-se o soluçar desesperado, irrefreável, de um pai: "Pobre de minha esposa, pobres de meus filhos, adeus, adeus!". Era o sargento Francisco Gajowniczek que chorava assim, com as mãos apertadas à fronte.
"Tirem os sapatos!", ordenaram os SS. Os tamancos rolaram por terra. Isso também fazia parte do rito: as vítimas deviam ser arrastadas descalças para a morte. Por outro lado, entre os poupados, o desespero havia dado lugar a um sentimento de alívio. Após tantas horas de tensão angustiante, no peito de alguns o coração pulsava as batidas quentes da alegria.
O homem saiu das fileiras - era o "número 16670" - e com passo decidido dirigiu-se para o comandante do campo. Como um sopro de vento, um leve murmúrio passou de um "bloco" a outro por todas as filas do grande quadrado. "Quem é? O que está fazendo? Mas, o que é que ele quer? Endoideceu? Alto! - berrou com voz sufocada - Que quer de mim este sujo polaco?".
Ao longo das fileiras do grande quadrado passou novamente um leve murmúrio. "É frei Kolbe!". "Realmente, é o frei Maximiliano Kolbe!". "É o franciscano de Niepokalanów!". O "número 16670" possuía finalmente um nome: frei Maximiliano Kolbe. Tirou o gorro e pôs-se com dignidade na posição de sentido diante do comandante do campo. Estava calmo e sorridente, com aquele olhar doce; alto, até o ponto que a magreza o tornava esguio; pálido, que parecia diáfano; e a cabeça ligeiramente inclinada à esquerda. Disse, com voz quase sumida: "Queria morrer no lugar de um daqueles", e fez um sinal com a mão na direção do grupo dos dez condenados ao bunker, cercados pelos verdugos.
Frei Kolbe compreendeu logo que a sua atitude heroica, naquele momento, podia estragar tudo. Era melhor facilitar a retirada do carnífice, que pela primeira vez encontrava-se visivelmente em dificuldade, e lhe aplainar o caminho, invocando um parágrafo não escrito, mas fundamental da lei nazista: os doentes e os fracos devem ser liquidados. "Já sou velho e não sirvo para nada - respondeu. A minha vida para nada mais se aproveita". "E por quem você quer morrer?", balbuciou Fritsch cada vez mais pasmado. "Por aquele que tem mulher e crianças " e apontou com o dedo, além da cerca dos capacetes de aço dos SS, o sargento Francisco Gajowniczek, ainda soluçando com as mãos apertadas à fronte. "Mas quem é você?", berrou Fritsch. "Um padre católico".
"É um pfaffe" (um padre), disse com um lívido escárnio Lagerführer, dirigindo-se a Palitsch. Naquele escárnio, o frei Kolbe teve a certeza de que o seu pedido seria atendido. "Aceito", foi com efeito a resposta de Fritsch; e Palitsch traçou uma linha sobre o número 5659 do sargento Gajowniczek, e o substituiu na lista pelo número 16670 do frei Kolbe. Tudo estava em ordem. A conta estava exata. Mas o campo parecia petrificado no estupor. Em Auschwitz jamais se tinha verificado o caso de um prisioneiro que tivesse oferecido a própria vida por outro prisioneiro a ele completamente desconhecido.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
LORIT, Sérgio C. Kolbe: herói e mártir do campo de extermínio de Auschwitz. 2.ª ed. São Paulo: Cidade Nova, 1975.

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