O DIA EM QUE PRESENCIEI NO MEU SONHO A RIQUEZA INFINDÁVEL DA PAZ E FRATERNIDADE UNIVERSAL...

Por JORGE ESCHRIQUI
Um dia tive um sonho... Pareceu-me que estava do outro lado da vida. Em um local que transcendia a razão e compreensão humana. Nos verdes campos deste lugar, eu vi árvores frutíferas; jardins com flores e rosas que aromatizavam todo o ambiente graças ao suave toque da brisa que as acariciavam; pássaros de diferentes espécies que cantavam melodias que soavam como músicas de paz interior e meditação; relvas que serviam como leitos macios para o descanso de pessoas e animais em harmonia e respeito mútuo e; céu claro com umas nuvens brancas que pareciam ser desenhadas por crianças, um sol que aquecia até a alma e um belíssimo arco-íris que era o toque final de decoração divina que tornava aquele ambiente em uma pintura impressionista de Van Gogh.
Este arco-íris parecia estender-se até um horizonte inalcançável inicialmente aos meus olhos. Em meu sonho decidi segui-lo para tentar comprovar ou não a crença popular de que no final de todo arco-íris existe um pote cheio de ouro. Ansioso pela busca do tesouro no final do percurso, caminhei sempre acompanhando o arco-íris sem perdê-lo de vista. A trilha percorrida parecia longa demais ou até mesmo em alguns momentos interminável. Todavia, a minha curiosidade humana não me fazia desistir. Pensava... Já estou distante demais do ponto de partida para desistir no meio do caminho ou fazer toda a trajetória de retorno. Irei até onde der.
Contudo, à medida que caminhava rumo ao destino almejado, as dores do meu corpo e da minha alma iam desaparecendo e, por conseguinte, sentia-me mais leve dos pesos da minha existência no planeta Terra. Ao observar ao longe o final do arco-íris, já não parecia mais caminhar, mas levitar sobre o chão de tanta leveza por causa da paz interior que sentia.
Chegando ao final do arco-íris, não observei nenhum pote de ouro. Entretanto, algo despertou em mim uma profunda curiosidade. Não havia um pote de ouro, mas uma mesa gigantesca coberta com uma toalha bem branca e rodeada por dezenas de cadeiras. Pensei comigo mesmo... Por que em vez de um pote de ouro, ao chegar no final da minha caminhada deparo-me com uma mesa tão grande e com tantas cadeiras? Até onde eu aprendi lá na Terra, neste plano não há necessidade de alimentação, pois os espíritos de luz vivem de energia e não de matéria.
Curioso, decidi esconder-me atrás de uns arbustos e olhar fixamente para o local onde estavam a mesa e as cadeiras. Passado um certo intervalo de tempo - que não sabia discernir quanto, pois o cronos do plano espiritual não obedece à lógica da contagem do tempo terreno -, observei a chegada aos poucos de indivíduos com indumentárias, biótipos e alimentos em suas mãos que pareciam ser provenientes de diferentes localidades e culturas do planeta Terra. Após algum esforço mental, constatei que não se tratavam simplesmente de quaisquer pessoas. Pelo contrário, pelo pouco que sabia sobre espiritualidade em diversos credos terrenos, concluí que eram entidades representantes de diversas manifestações de fé existentes no plano material.
Sentaram-se à mesa profetas do judaísmo, protestantismo e islamismo, orixás das religiões de matriz africana, divindades do xamanismo e hinduísmo, monges budistas e santos católicos e mensageiros de paz do kardecismo. Simplesmente uns ao lado dos outros sem discórdia, discussões ou intolerância. Pelo contrário, cumprimentavam-se respeitosamente e conversavam entre si como se as diferenças nos cultos e nos dogmas religiosos ficassem apenas na Terra. E o mais importante, todos, absolutamente todos, falavam de fé, espiritualidade, paz e fraternidade.
Depois de algum tempo, chegaram também Jesus Cristo, Maomé, Buda, Tupã, Ogum, Brahma e até Moisés. Antes de se sentarem nas duas pontas da grande mesa, eles abraçaram-se, desejaram paz e luz uns aos outros e iniciaram uma oração ecumênica em prol do bem comum de todos os seres e da paz e fraternidade de todo o Universo, desejando que os espíritos superiores e de luz abençoassem a cada um daqueles presentes naquele local. Por que a paz e fraternidade de todo Universo? Pensei e concluí intimamente... Porque o Universo estende-se além da compreensão científica humana. Diante de uma ampla gama de sistemas e galáxias existentes no Universo, quem pode garantir que exista apenas vida em um minúsculo planeta comparado com o infinito que transborda para muito além da lógica terrena?
No final do arco-íris do plano espiritual presenciei em meu sonho que havia um tesouro maior que grande parcela da Humanidade, apesar de todo o desenvolvimento científico e tecnológico observado no planeta Terra, ainda não foi capaz de descobrir infelizmente: o amor fraterno. Ali estavam figuras representativas do que o ser humano denominou como religiões. Porém, naquela mesa as religiões não eram como clubes fechados com formas de ingresso, rituais e dogmas rígidos que muitas vezes mais difundem o distanciamento do que a aproximação entre os indivíduos.
Ao ver Jesus Cristo, Maomé, Buda, Tupã, Ogum, Brahma, Moisés e tantas outras entidades espirituais tão veneradas na Terra trocando abraços fraternais, conversas e sorrisos e compartilhando o mesmo pão, compreendi que naquela mesa no plano espiritual a expressão "cear" ia muito além do significado de "alimentar-se". Podem ser até palavras interrelacionadas, mas não são sinônimas. "Cear" é sentar-se à mesa e compartilhar não apenas o pão, mas sobretudo momentos especiais. Ao contrário da obra "A última ceia" de Leonardo da Vinci que foi reproduzida milhões de vezes ao longo dos séculos desde o "Renascimento Cultural" europeu, aquela mesa não era uma despedida de Jesus Cristo dos seus apóstolos ou semelhantes. Eu estava diante de uma ceia entre tantas que foram e seriam ainda celebradas no plano espiritual por representantes de diferentes credos religiosos no plano terreno. Ali, Jesus Cristo não se despedia de ninguém, mas congratulava com toda a humanidade representada naquele local e celebrava a fraternidade universal em sua plenitude. Eu podia sentir nele o ápice da alegria de viver e conviver com todos indistintamente. Parecia que eu estava presenciando na prática toda a emoção que transborda na letra de "Ode à alegria" da Sinfonia n.º 9 de Ludwig van Beethoven.
Ademais, aquela mesa fez-me entender que no plano espiritual as religiões terrenas não eram obstáculos à fraternidade. Também deduzi ali que o ato de amar o próximo ultrapassa as fronteiras naturais e artificiais utilizadas pelos seres humanos para separá-los por territórios (rios, mares, oceanos, cordilheiras, alfândegas, muros, trincheiras, etc.). Naquela mesa o mundo espiritual era uno e indivisível para todos, provavelmente como Deus pensou originalmente que seria o planeta Terra. E talvez o mais importante, enxerguei ali também que o outro não é apenas o meu semelhante em tradições, hábitos, comportamentos, crenças, expressões artísticas ou visões de mundo - o que na Terra costumamos resumir através da palavra "cultura". O meu semelhante pode ser o outro que é diferente de mim, mas que em uma convivência harmoniosa e pacífica podemos nos tornar irmãos com profundos aprendizados sobre pluralidade, respeito mútuo e riquezas culturais incalculáveis. Não precisamos perder a nossa identidade que demarcam as nossas origens culturais, mas também não podemos fazer delas barreiras para o exercício do amor ao outro. O amor ao próximo é possível, sim, por meio da prática cotidiana do convívio na diversidade e do altruísmo (colocar-se no lugar daquele que é diferente de mim, mas nem por isso simplesmente considerado inferior a partir da minha métrica e visão religiosa, política, econômica ou cultural).
Após presenciar tal cena naquela mesa, fiquei a refletir sobre a maior riqueza que o ser humano deveria buscar durante a sua jornada terrena. É uma pena que muitas vezes a rotina diária, a intolerância, o ódio, o egoísmo, a ganância, o preconceito, a disseminação de mentiras em redes sociais, dentre outros sentimentos e outras práticas maléficas para a nossa evolução física, mental e espiritual, não nos façam perceber que a autêntica fé e espiritualidade nos ensina que a principal riqueza que carregamos conosco ao final da existência no plano material não é também o pote do ouro do final do arco-íris. Mas a paz pessoal e coletiva que somente a humanidade alcançará quando valorizar e exercer cotidianamente o altruísmo e a fraternidade universal!



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