COMO NA ARGENTINA* (Reflexão: A persistência e a dificuldade de ocultar-se e dissolver-se os corpos dos desaparecidos durante as ditaduras latino-americanas, como a da Argentina. Pode o Estado livrar-se do corpo de um perseguido político, mas como uma nação pode libertar-se do seu passado traumático?) Por LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO (In memoriam) Não é fácil eliminar um corpo. Uma vida é fácil. Uma vida é cada vez mais fácil. Mas fica o corpo, como o lixo. Um dos problemas desta civilização: o que fazer com o próprio lixo. As carcaças de automóveis, as latas de cerveja, os restos de matanças. O corpo boia. O corpo vai dar na praia. O corpo brota da terra, como na Argentina. O que fazer com ele? O corpo é como o lixo atômico. Fica vivo. O corpo é como o plástico. Não desintegra. A carne apodrece e ficam os ossos. Forno crematório não resolve. Ficam os dentes, ficam as cinzas. Fica a memória. Ficam as mães. Como na Argentina. Seria fácil se o corpo se extinguisse com a vid...